sexta-feira, 21 de abril de 2017

Café Royal XVI

Antero

Abril será sempre o mês “inicial inteiro e limpo” e, para mim, o mês cintilante, impregnado pela dádiva de uma filha e de um pai. Mas Abril é, também, o mês de Antero. 18 de abril foi o dia do 175º aniversário de Antero de Quental. Antero é o mais eterno de todos os açorianos. Nenhum outro filho destas lávicas rochas, desta húmida leiva, deste intemperado clima, deixou tão profundo legado. O homem de polémica, de política, filósofo, anarquista, ensaísta, pedagogo, homem frágil e doente, mas, ao mesmo tempo, firme e altivo. Poeta. Antero superlativamente humano, génio e santo. Porém, poucos são os que hoje nas ilhas o recordam. Vivendo num tempo de efemérides bacocas, em que qualquer epifenómeno virtual se transforma numa data, uma verdadeira celebração, os 175 anos do nascimento de Antero de Quental, é incompreensível e inaceitavelmente obliterada do calendário. Honra, no entanto, seja feita à Associação dos Antigos Alunos do Liceu, à livraria e editora Artes e Letras e à Câmara Municipal de Ponta Delgada, que com uma original edição de As Fadas assinalaram o dia, ao contrário de, imperdoavelmente, todas as instituições governamentais e legislativas da região, que por completo o esqueceram e, para maior vergonha minha, do próprio PS, que o usa quando precisa, mas não o honra quando deve.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Café Royal XV

Que futuro?

O fundamento mais profundo de toda a cultura é o exemplo dos que viveram antes de nós. Exemplo prático, exemplo cultural, exemplo vivo. Somos o que vivemos, mas somos tanto ou mais o que lemos, vemos e aprendemos. Em livros, quadros, filmes, na educação, em formas múltiplas de leitura e de interpretação dos legados da história, da arte, da literatura, da vida, do exemplo prático. Vivemos hoje um tempo inquietante e imprevisível em que a ignorância, com a sua arrogância própria, assumiu o poder. Olhando apenas as horas tudo parece seguir o seu caminho. Mas, se olharmos as décadas, o tempo vagaroso, denso, dos gestos e das suas consequências, o que vemos são os variados e colossais perigos da história humana feita impulso em vez de pensamento, feita grito no lugar da cadência. Vivemos o tempo da pulsão, cega e repetitiva. Perdemos não só o distanciamento inerente à erudição como, infelizmente, a tranquilidade do saber, próprio ou transmitido. A ironia é essa mesmo. Numa época da História em que mais precisamos de conhecimento somos governados pelo sucesso vácuo da ignorância. Não são já as notícias que são falsas, é toda a realidade. Quando o porta-voz da Casa Branca afirma que Hitler não usou armas químicas é o nosso próprio futuro que se perde.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Café Royal XIV

A vã glória…

Porque homenageamos pessoas? Porque exaltamos, de entre todos, alguns de nós? E de que forma o fazemos e com que intuito? O gesto honorífico, assuma ele a forma que tiver, é, ou deveria ser, uma valorização dos indivíduos que por mérito se superaram e cujo exemplo queremos recordar. Nas mais diversas áreas, das mais diversas formas, da arte à ciência, da bravura à abnegação, contribuindo assim para o engrandecimento de todos nós. Desde tempos imemoriais que só as figuras cimeiras se destacavam. O guerreiro, o feiticeiro, a mãe, e não necessariamente por esta ordem, foram os primeiros merecedores de exaltação, destacando-se assim nas hierarquias sociais. Mas, nesta era do efémero, já nada se sobreleva e tudo ou qualquer um pode ser homenageado. Damos comendas a arguidos de corrupção, nomes de ruas a pessoas vivas, multiplicamos pequenas honrarias em que nem escapa o cão. Numa sociedade supostamente republicana, obrigaria a ética que as prebendas fossem parcimoniosa e prudentemente ofertadas. Celebrarmos os nossos maiores é um gesto de civilização. Despender excitadamente honras, como quem faz likes no Facebook, é vulgarizar esse gesto e ridicularizar os próprios sujeitos da homenagem seja ela o batismo de um aeroporto ou o pífio branding de um avião.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Café Royal XIII

29.03.17

Fixemos a data. O dia em que a mais antiga democracia do mundo pediu, formalmente, a saída do mais abrangente projecto de paz e concórdia da História. O abandono do Reino Unido da União Europeia deixa a Europa num cruzamento onde apenas dois caminhos se lhe apresentam: o seu fim ou a integração plena das instituições europeias. Mas, qualquer avanço neste processo terá que, primeiro, atacar um dos, talvez o mais grave de todos, cancros que corroem o interior do ideal europeu – a distância profunda que hoje separa os cidadãos europeus da realidade política da União. Acreditar numa verdadeira democracia europeia e na reforma das suas instituições terá que começar aí. A escolha por um modelo de governação que tenha como princípio base a proximidade entre eleitos e eleitores, partindo, necessariamente, do plano regional. Uma Europa de regiões, mais do que de estados, pode, no imediato, ser a única forma de salvar o sonho de uma comunidade de paz, solidariedade, desenvolvimento económico e respeito pelos povos. Uma federação de regiões poderá ser a única salvação para o ideal europeu. E nessa nova Europa os Açores, pelo simbolismo da sua história e relevância do seu posicionamento geoestratégico, terão necessariamente um papel fundamental a desempenhar.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Café Royal XII

A Mecanização

Escola primária. Não fez oito anos ainda. Às sete e meia, oito, levantar, arranjar, vestir, pequeno-almoço, lavar os dentes, sair de casa. Na mochila pastas com papéis, quatro livros de estudo e quatro livros de fichas, mais quatro cadernos, dois estojos, muda de roupa, o ocasional brinquedo. Um pes(adel)o. Nas semanas dos testes vai e vem tudo da escola para casa, de casa para a escola. Na mão, a lancheira. Escola antes das nove. Português, matemática, estudo do meio, inglês, ginástica, sala de estudo, pelo meio lanche da manhã, almoço, lanche da tarde. Pelas três e meia, quatro, violino (duas vezes por semana), ballet (duas vezes por semana) e os cavalos à quarta ou ao sábado. Seis e meia, às vezes sete(!), chegar a casa, trabalhos de casa, banho, pijama, jantar, dentes, xixi, cama… Aos fins-de-semana, mais trabalhos de casa e mais tantas outras falsas obrigações. Depois, começa tudo de novo. Automatizamos as crianças, encarreiradas, cumpridoras, competitivas. Entretanto, nas notícias, os concursos dos professores, os rácios, os ratings, os índices, as taxas e tantas outras estéreis quezílias de adultos, esquecendo-nos que, nessa coisa chamada “sistema educativo”, o que realmente interessa são as crianças e o único indicador que nos deve preocupar é o seu grau de felicidade.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Café Royal XI

Da História…

Após o sonho adolescente de querer ser cineasta dei por mim a frequentar os bancos de um curso de História. Devo confessar que o meu zelo académico era reduzido, passei mais horas nas mesas da Tasca d’O Lagarto do que nas cadeiras da faculdade, mas o gosto intrínseco pelos livros tornou-me a licenciatura relativamente fácil. Estudar História é um bom fundamento para olhar o mundo. Perceber as entrelinhas dos atos dos homens permite olhar para lá da mera manchete dos acontecimentos. Quem olhe em seu redor procurando compreender o seu tempo, o seu mundo, mesmo não ligando à sucessão e encadeamento dos eventos, não pode deixar de compreender o quão iminentemente frágil é o nosso momento na História. A instabilidade política global, o descrédito das instituições, o alheamento dos cidadãos, a emergência dos populismos, a clivagem religiosa, a desagregação geoestratégica, um pouco por todo o lado se pressente a ruína do tempo histórico. Marx postulou que a História se repetia, primeiro como tragédia, depois como farsa. Quem siga os vários telejornais do dia, com o olhar assente nas lições do passado, não pode deixar de sorrir ao constatar que vivemos de facto na iminência da tragicomédia. Como se usa dizer – é rir para não chorar.

domingo, 12 de março de 2017

Café Royal X

“Mar vivo”

Na semana passada a anormalmente rápida evolução de uma baixa pressão deu origem a ondas de 13 metros que derramaram destruição no litoral da Madalena do Pico. Edifícios públicos foram arrasados, investimentos privados foram arruinados, tudo isto independentemente do número de likes que tinham no Facebook. Séculos de sedentarização tornaram-nos analfabetos da natureza. Já não lhe reconhecemos os sinais. E, aqui no meio do atlântico, à mercê dos elementos, nem a tecnologia nos salva da sua força. Furacões raspam-nos a costa, tempestades inundam-nos as terras, que em torrente se esvaem no mar, ondas gigantes assaltam-nos a vida. É como se todo o planeta irrompesse numa febre de que somos nós o vírus causador. Hoje, é tão indesmentível a realidade do aquecimento global como é impossível escapar-lhe ou detê-lo. Serão necessárias gerações para sequer esperançarmos que o planeta nos acolha de novo de forma benigna. Mas, se não começarmos já esse caminho de regresso ao respeito pela natureza nunca conseguiremos esse desígnio de comunhão com o futuro. Que sentido podemos encontrar nas nossas vidas quando é o próprio planeta que morre diante dos nossos olhos hipnotizados pelos ecrãs dos telemóveis?