quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Café Royal XLII

O Bem Público

Valor supremo num Estado democrático é o bem público. Valor sagrado para a República em que o bem de todos os cidadãos, iguais aos olhos do Estado, é principio e fim da razão de toda a governação. Os que são eleitos são-no com essa responsabilidade, de agir para e zelar pelo bem público. Mandaria, também, a ética que esse fosse, quase como um sacerdócio, o desígnio último de quem ocupe cargos públicos. Infelizmente, essa vocação parece hoje cada vez mais alheada dos nossos políticos. A acusação a José Socrates, escândalo de proporções dantescas de promiscuidade entre o interesse público e privado é, independentemente da culpabilidade dos envolvidos, um caso que mina profundamente a solidez do regime precisamente naquela que deveria ser a base fundamental do mesmo: a confiança depositada pelos cidadãos nos seus eleitos e a responsabilidade destes em cuidar pelo bem de todos. Também, nessa tragédia de proporções bíblicas a que assistimos, outra vez, nos últimos dias, do país em chamas, é a fé das pessoas na governação que se vê, talvez irremediavelmente, destroçada. Por cá, foi desmascarada uma rede de corrupção, naquilo que poderá ser o levantar do véu de uma vasta epidemia de corrosão dos interesses públicos. A obrigação dos nossos eleitos é resgatar de novo para a governação o primado do Bem Público, antes que seja tarde de mais…

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Café Royal XLI

As pessoas

Sobre a “questão” catalã, há dois aspetos que importa destacar. 1.º O papel das “esquerdas” – os ideais progressistas são, iminentemente, universalistas, (veja-se a Internacional Socialista). Balcanizar estes ideais em problemáticas geográficas ou, mais grave ainda, nacionalistas, é uma contradição e provoca uma erosão da sua condição humanista, condenando-os a mero contraponto regional dos imperialismos capitalistas que deviam combater. 2º A União Europeia – ao se agarrar, de forma cega e surda, a uma ideia de estados-nação, inamovíveis e imutáveis, aumenta o fosso que a separa dos cidadãos colocando, ainda mais em dúvida, aos olhos das pessoas, a sua utilidade. A discussão sobre a independência da Catalunha, ao tornar-se numa batalha entre progressistas e conservadores, representa uma sul-americanização do debate político europeu, em que duas ideologias diferentes, sob a bandeira da autodeterminação, lutam não já por um ideário político concreto, mas apenas por um quinhão geográfico de poder. Porém, é aqui, na síntese destes dois dilemas e pela definição de uma nova Europa de cidadãos e de regiões, que poderá nascer uma união com instituições verdadeiramente próximas das pessoas. Isto sim seria um ideal progressista, mas a mera independência não…

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Café Royal XL

Eu acuso!

“Num arquipélago oceânico com uma tradição balnear multissecular, a regulamentação das questões relacionadas com a utilização balnear das suas águas, em especial das águas costeiras, assume uma particular importância na defesa da segurança e saúde das pessoas e na criação de condições de promoção das atividades económicas ligadas ao turismo e ao mar.” Este é o primeiro paragrafo do DLR n.º 16/2011/A, que “estabelece o regime jurídico da gestão das zonas balneares, da qualidade das águas (…) e da prestação de assistência nos locais destinados a banhistas”. Ora, nos últimos dias, dois turistas estrangeiros morreram nas praias da Ribeira Grande. A responsabilidade por estas mortes é da Câmara e do Governo. E é-o porque são estas entidades que têm por obrigação definir as zonas e as épocas balneares, bem como a sua segurança. Mas, por razões meramente financeiras, optaram por um período ridículo, de Junho a Setembro, (algumas câmaras menos ainda!) reduzindo ao mínimo a despesa com segurança e limpeza. Estas opções são criminosas! A verdade é que os Açores não têm uma “tradição balnear multissecular”. Se tivessem, existiria já um corpo permanente de nadadores-salvadores, tutelado pela Proteção Civil, com a responsabilidade de assegurar, o ano todo, que não haja mortes, não pelo turismo, mas pelas pessoas…
in Açoriano Oriental

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Café Royal XXXIX

Qualificação

Subitamente, todos falam em qualificação. Comentando o anúncio do voo da Delta o líder dos empresários locais chamou à atenção para o imperativo de qualificar a oferta turística da região. O que surpreende não é o conteúdo, mas o momento. Os Açores, desde há muito, que deviam ter concentrado todos os esforços no desafio da qualidade! Devíamos, políticos e empresários em conjunto, ter feito apostas claras para a qualificação do Destino, mesmo antes da abertura do espaço aéreo! O que choca é que, saídos da crise e perante o crescimento dos números, a maioria dos empresários foi capaz, apenas, de subir preços, baixar os serviços, aumentar capacidade e salivar com as hordas de ryanairianos que pulularam pelas ilhas nestes três verões. Entretanto, os políticos foram-se gabando dos dois dígitos das estatísticas e deslembraram os seus próprios programas de governo… As últimas notícias obrigam a perceber que o Turismo na região só terá futuro com uma aposta clara na sua qualificação como Destino. Isto é: melhorar hotéis, restaurantes, alojamentos, serviços, mão de obra qualificada, oferta de lazer, cultura, museus e, até, mais nadadores salvadores… enfim… é preciso pensar em quase tudo. Mas, para os empresários basta ter aviões cheios e para os políticos tudo se resolve com uns míseros polícias sinaleiros nas cumeeiras dos vulcões…

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Café Royal XXXVIII

Metáforas

Finalmente vai acabar a campanha autárquica. Apesar de, formalmente, essa campanha só ter tido início há poucos dias, desde Março que os diferentes circos partidários se fazem ouvir pelas ruas, fóruns, salões de baile, arruadas, beijinhos, porta-a-porta, cartazes, caixas de correio e outro tanto rol de itens com que tentam inebriar a amálgama indistinta de cidadãos a que eufemisticamente gostam de chamar “o povo”. É normal, já estamos habituados, mas cansa. Triste, no entanto, é que do que realmente importa pouco se fala. Desenvolvimento sustentado? Políticas ambientais? Qualificação da oferta turística? Da gestão básica das coisas autárquicas: mobilidade, saneamento, resíduos? Sobre tudo isto, nada. As frases são sempre as mesmas. Um anúncio aqui, uma intenção ali. Mais betão acolá, um investimento acolí e assim se vai andando, sorridentemente. Esta campanha autárquica transformou-se mesmo numa verdadeira publicidade à pasta de dentes. Armadilhados de fotógrafos profissionais, os candidatos inundam as redes sociais de fotos suas, numa torrente de vaidade fútil sem precedente. Mas, nessa ânsia da pose e da foto estudada transparece a metáfora do nosso futuro. Um candidato faz-se fotografar com um avião de uma companhia low cost a sobrevoar-lhe a testa, omitindo que já amanhã esse mesmo voo será, provavelmente, cancelado…

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Café Royal XXXVII

Instituições

Não existem muitas instituições que representem, verdadeiramente, os Açores. Mais importante ainda, são poucas as instituições que se identificam, realmente, com o arquipélago e as suas gentes e que dão dimensão a estas nove ilhas dispersas no mar. Se tirarmos as religiosas, então, ainda menos. E, se pensarmos que vivemos um tempo em que as instituições políticas se desconsideram aos olhos do povo, e em que a Universidade se dilui em contas de mercearia, resta quase nada a que todos os açorianos, daqui e de lá, possam dizer, em conjunto, que é seu e de todos. Resta, talvez, a RTP-A e a SATA. Porém, hoje assistimos, com dor, ao progressivo e diário desmoronar das duas. No caso da SATA, que vive um drama que não é de agora, urge iniciar a sua salvação e não é só pela parte financeira ou comercial, mas sim laboral. A forma como foi gerido o quadro de pessoal da empresa, desde a admissão de familiares à promoção e despromoção de quadros, que depois se mantêm na empresa, passando por acordos feitos com fito eleitoral, criou um autêntico pandemónio na gestão, transformando cada funcionário da companhia num verdadeiro “saco de ressentimento”. Sem primeiro haver paz social na companhia nada poderá ser resolvido. E, não creio que ninguém com responsabilidade, política e de gestão, queira ficar na História como o coveiro da SATA e das famílias que dela dependem, sejam seus trabalhadores ou todos nós - açorianos.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Café Royal XXXVI

Balanço

Andam, por aí, as vindimas. Vão regressar as aulas. Não fosse o ditame do calendário e Setembro seria o início do novo ano. Altura de fecho e de recomeço e, também, de balanço. Olhando atrás, para os dias de estio, fica a enchente de turistas, a ilha esgotada. Os dislates autárquicos, dos candidatos embrenhados em promessas, construções, beijos em idosas e tanto outro tipo de disparates. As inenarráveis festas brancas (eu sei, eu fui a uma…). Consta que houve um eclipse e a ameaça, nunca tão assustadoramente real, de aniquilação total pelas mãos da loucura de Trump e Kim… Fica, também, a crise, parece que final, da SATA. Ao longo do Verão muito se falou da companhia, da administração, dos trabalhadores, dos sindicatos, do acionista. Em alegres patuscadas todos fomos especialistas em aviação, gestores, economistas, dirigentes e hospedeiros. Todos soubemos o que fazer com a companhia. Fechar, vender, despedir, remodelar, separar, correr tudo à bofetada… Foi como se dentro de cada um de nós houvesse, nem que por uns instantes de alegre cavaqueira, um José Gomes Ferreira da aviação. Como se Fernando Pinto tivesse baixado em cada um de nós entre dois copos de conversa… Do verão que passou fica, de facto, a necessidade imperiosa de se fazer um balanço sólido daquilo que a Região quer para o seu futuro, para o turismo e para a SATA. Mas isso fica para próximas crónicas…